quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Pelos Corredores da Loucura

Para o Jornal A Esperança

Panorama do principal hospital psiquiátrico do Rio Grande do Norte


O Hospital Dr. João Machado é uma instituição hospitalar pública de referência na assistência psiquiátrica para o RN. Foi construído dentro dos moldes de colônia agrícola e uma das finalidades era o tratamento pela laborterapia (tratamento de doenças mentais e nervosas através do trabalho). Inaugurada em 1957, dentro da política desenvolvimentista do presidente e médico Juscelino Kubitschek, a instituição surgiu com o nome Hospital Colônia de Psicopatas. Diferente do modelo asilar daquela época, não havia grades de ferro nem muros separando as enfermarias. Assim como pode ser visto hoje, os corredores se interligavam, favorecendo a interação entre os pacientes. Era a realização dos ideais do médico potiguar João da Costa Machado, psiquiatria que lutava por um tratamento mais humanitário para os loucos. Com a morte do médico, na década de 60, o projeto foi paralisado e só foi retomado na década de 90, no processo de Reforma Psiquiátrica. Na atualidade, os pacientes internados no HJM estão bem assistidos, mas a instituição enfrenta graves problemas de superlotação no pronto-socorro, além de ver com preocupação as crescentes internações e reinternamentos dos dependentes químicos.
A assistência psiquiátrica no HJM é realizada por uma equipe multidisciplinar envolvendo médicos, psicólogos, enfermeiros, técnicos e auxiliares de enfermagem, nutricionistas, assistentes sociais, terapeutas ocupacionais e farmacêuticos. Funciona nas seguintes modalidades: 1) pronto socorro com regime intensivo que atende às emergências e casos de urgência clínica e psiquiátrica; 2) ambulatório que realiza atendimentos individuais psiquiátricos previamente agendados e 3) enfermarias, nas quais ocorrem os internamentos, bem como o alojamento dos moradores, que se subdividem em alas masculina, feminina e dependência química masculina. Está em construção uma ala para a dependência química feminina, com 8 leitos. Há 130 leitos em funcionamento, o total é 160. O hospital atende a uma média mensal de 700 pacientes e cerca de 25% desses são internados.
O modelo do HJM faz parte de uma tendência surgida após a Reforma Psiquiátrica no Brasil, um processo político e social complexo, iniciado na década de 70 que abrangeu territórios diversos, desde os governos, hospitais, universidades, conselhos profissionais, associações de pessoas com transtornos mentais, além do imaginário social e a opinião pública. A Reforma foi um conjunto de transformações de práticas, saberes e valores culturais e sociais no cotidiano das instituições, dos serviços e da relação entre pacientes e profissionais. A intenção era acabar com o asilamento dos doentes mentais, oferecer um tratamento eficaz de acordo com as necessidades e que o paciente pudesse resgatar ou manter o convívio social. Para tornar essa realidade possível, surgiram em diversas cidades instituições conveniadas ao SUS (Sistema Único de Saúde), como os CAPS – Centros de Atenção Psicossocial.  De acordo com o Ministério da Saúde, os CAPS constituem a principal estratégia do processo de reforma psiquiátrica que vem sendo implantada no Brasil nas últimas décadas. Suas funções primordiais seriam: 1) prestar atendimento clínico em regime de atenção diária; 2) evitar as internações em hospitais psiquiátricos; 3) promover a inserção social e familiar das pessoas com transtornos mentais; e 4) dar suporte à atenção em saúde mental na rede básica de saúde. No RN há 19 instituições cadastradas, sendo Natal e Mossoró as cidades com mais unidades: quatro.
Com isso, era esperado que diminuísse o número das internações nos hospitais psiquiátricos. Não é o que vem acontecendo no HJM. Hoje, o problema mais grave é a superlotação no pronto-socorro, que tem 35 leitos. Com a grande demanda, o número de pacientes a espera de atendimento chega a dobrar o da quantidade de vagas. A psiquiatra Myrna Chaves- diretora do HJM, diz que os CAPS não atuam da forma adequada: “Era para funcionar 24h. O CAPS III (região Leste) só funciona até as 17h. Depois desse horário eles não recebem pacientes e estes tem que voltar para o hospital. Falta contratar profissionais para essas instituições e isso cabe a o município”, disse. Eugênio Pacelli, administrador do hospital acrescenta: “O hospital cuida da parte clínica. O pronto-socorro é uma atribuição do município, mas o HJM assume. Mesmo com a superlotação o paciente é acolhido, até mesmo no chão, por falta de vagas. O município muitas vezes não dispõe de médicos. Se um paciente não recebe corretamente a medicação, a doença retorna. É o que ocorre com frequência: as reinternações. O medicamento não é fornecido corretamente pelo município. Falta de atendimento ambulatorial. Falta de tudo”, afirma.
Outra realidade tem preocupado os profissionais do HJM: as internações por dependência química, que crescem assombrosamente. No pronto-socorro, os atendimentos a dependentes químicos já supera o de atendimento a transtornos psíquicos. Usuários de drogas chegam geralmente imobilizados, em surto. Os familiares chegam desesperados ao hospital, querendo interná-los de qualquer forma, temendo a violência causada pelo tóxico. Esses são os pacientes com tratamento mais complexo, devido ao fácil acesso a substâncias como o crack e álcool.
Em níveis estruturais, Pacelli reclama da falta de repasse do governo: “Faz tempo que não compramos material permanente para cá. Falta verba. A estrutura desse hospital é antiga e nunca foi feita uma reforma, realmente”. Quase não existem computadores no hospital. A internet está fora do ar há mais de cinco meses. Registros, prontuários, controles de entrada e saída de medicamentos são registrados em grandes livros, organizados em estantes. O hospital não chegou à era digital.
Algumas vezes, o estoque de material de higiene pessoal como sabonete e algodão fica reduzido e os funcionários colaboram, promovendo doações e promovendo medidas econômicas, para que não faltem.
A parte antiga, em funcionamento coexiste ao lado de uma estrutura recém-construída e quase finalizada. É que no futuro espera-se que o HJM seja transforme em um hospital geral. “Esse hospital será, no futuro, uma retaguarda do Walfredo Gurgel. Pacientes debilitados do HWG virão para cá; o objetivo será desafogar o HWG. Receberemos pacientes idosos, em estados terminais e de outras enfermidades. Mas a nossa ênfase será a psiquiatria”.
Parte do prédio foi reformada e ganhou 35 novos leitos. Haverá uma entrada exclusiva para ambulâncias e pacientes e recepção própria. Pacelli disse que a pretensão da Secretaria de Saúde é instalar, ao todo, 70 leitos.



MAPA 1º SEMESTRE 2013 POR DIAGNÓSTICO DOS PACIENTES INTERNADOS
NO HOSPITAL DR. JOÃO MACHADO
TRANSTORNOS MENTAIS
418
64%
ALCOOLISMO
89
14%
DROGAS
147
22%
 A CONFIRMAR
2
0%
TOTAL
656
100%

Dados fornecidos pelo hospital


O contato com o hospital e seus pacientes
As paredes tem a cor verde-água, árvores e plantas bem cuidadas fora e dentro do hospital, em pátios e jardins internos. Os pacientes andam livremente pelos corredores; a maioria dos homens e mulheres usa um uniforme semelhante a um pijama: uma bata e calça de elástico, em tons de azul. Alguns preferem andar descalços, outros calçam chinelos ou sapatos. Na quadra de recreação ao ar livre, conversam em grupos ou sozinhos, sentados em bancos, divertem-se com jogos de tabuleiro e televisão. Homens, mulheres e dependentes químicos ficam separados por alas. Muitos ficam curiosos com a presença de visitantes. A ala masculina e feminina contém pessoas de várias idades, a partir dos 16 anos- a idade mínima para internação. As mulheres parecem muito sensíveis e carentes. Nos corredores elas abordam os funcionários e visitantes, fazendo pedidos, reclamações diversas ou puxando conversa. O ambiente é barulhento e pacífico. Já as alas masculinas são menos ruidosas, os homens são mais reservados e gostam de jogos como sinuca e totó. O lado dos dependentes químicos é constituído de indivíduos jovens, que passam o tempo deitados em colchões, assistindo televisão.


A residência médica em psiquiatria
Há pouco tempo o hospital parecia ser repudiado por profissionais recém-saídos das faculdades ligadas a área de saúde. Nas contas da diretora do hospital, fazia 20 anos que médicos não procuravam a especialização em psiquiatria. Até que em um congresso em Recife-PE deparou-se com a existência de uma residência em psiquiatria naquele PE que era paga pelo governo do estado. A ideia foi aprovada pelo secretário de saúde Gilson Marcelino e aprovada pela Comissão Nacional de Residência Médica. Hoje há 9 residentes em psiquiatria no hospital.



A loucura
A loucura está ligada não apenas às assombrações e aos mistérios do mundo, mas ao próprio homem, às suas fraquezas, às suas ilusões e a seus sonhos, representando um sutil relacionamento que o homem mantém consigo mesmo”  Foucault.

Historicamente a loucura é vista com maus olhos. Em tempos medievais, pessoas com desordens mentais eram expulsas das cidades e fortificações e embarcadas em navios, para serem transportadas para longe a fim de livrar as famílias e cidades de suas presenças inconvenientes. Esses barcos ficaram conhecidos como Nau dos Loucos. Séculos depois, coisa semelhante repetia-se nos antigos leprosários, que depois foram transformados em manicômios: iam para esses lugares os loucos, criminosos, desordeiros. Essas instituições costumavam ser cercadas de muros altos e afastadas dos centros das cidades. Não se sabia ao certo o que acontecia dentro daquelas paredes, mas de fora podiam ser ouvidos gritos e lamúrios dos internos. O indivíduo, escorraçado do convívio social muitas vezes pelos próprios familiares, adentrava num outro mundo, do qual, possivelmente ele não sairia mais.  Efeito semelhante ao das embarcações do passado.



Um Pouco da História do Hospital Psiquiátrico em Terras Potiguares
No século 19, doenças como lepra, sífilis, cólera e a varíola aterrorizavam a população de Natal. Não sabia-se as formas de contágio dessas moléstias e o povo acreditava na teoria dos miasmas, segundo a qual os odores exalados por matéria orgânica podre nos solos e lençóis freáticos originavam doenças. Naquela época, sugeria-se que o matadouro da cidade fosse instalado em local afastado, assim como se abandonasse o hábito de enterrar os mortos nas igrejas.
Nesse tempo, a cidade de Natal lentamente crescia e os problemas sociais surgiam. Muitos indigentes perambulavam pelas ruas da cidade, muitos cablocos e escravos libertos em situação de extrema pobreza. O que fazer com essa gente? Não havia políticas de ressocialização no país e a solução era criar locais para abrigar essa gente nas cidades. Os nomes eram casa de Caridade, um hospital ou Leprosário.  Em 1855 surgiu o primeiro hospital de natal, o Hospital da Caridade. Como a carência médica era grande, os pacientes lá ficavam abandonados à própria sorte. Dois anos depois foi criado um lazarento que, ao contrário do que o nome indica, não recebia leprosos, mas casos de pacientes desenganados e também era local de despejo de pessoas que não se enquadravam nas regras de conduta social, chamados de loucos. Os leprosos ganharam um Leprosário, que ficava bem afastado da cidade.
No Brasil, as pessoas consideradas loucas, mesmo que não tivessem cometido crimes, eram trancafiadas em cadeias públicas, alojamentos de paredes escuras, grossas, cercados de grades, amarrados ao chão, em péssimas condições de higiene, passando fome e recebendo castigos físicos.
O primeiro hospício do Brasil surgiu em 1852. Era nos moldes dos hospícios franceses e oferecia higiene, água de boa qualidade e segmentação entre seus pacientes. Natal demorou a ter um assim. As pessoas encerravam os seus destinos no Lazarento, que teve o nome modificado para Asilo da Piedade e era chamado pelo povo de Prisão de Doidos. Tempos depois o lugar passou a ser chamado de Hospício de Alienados de Natal.
Tudo mudou com a chegada de João da Costa Machado, a Natal, em 1936, que proporcionou um novo olhar sobre a saúde mental, lutando contra o antigo modelo de tratamento da loucura.



Referências:
Ministério da Saúde

Azevedo, Juliana Rocha de. Diálogos da Alma: Uma outra história da Loucura. Natal, 2006

sábado, 21 de setembro de 2013

Projetos podem melhorar vida de deficientes

MENUS EM BRAILLE E ACESSO AO PASSE LIVRE INTERMUNICIPAL TRAMITAM NA ASSEMBLEIA

Ronaldo Tavares, presidente da Sociedade dos Cegos do Rio Grande do Norte (Foto: Argemiro Lima)


Projeto que tramita na Assembleia Legislativa determina que os estabelecimentos comerciais do estado devem disponibilizar menus em braille para a leitura de clientes portadores de deficiências visuais. Além disso, outro projeto prevê que deficientes físicos possam ter acesso ao passe livre intermunicipal. As duas bandeiras são defendidas pela Sociedade dos Cegos do RN (Socern), que hoje celebra o Dia Nacional da Luta de Pessoas Deficientes.
“Se esse projeto se tornar realidade, será de grande alcance social. Você não imagina como será interessante um deficiente visual chegar em restaurantes, hotéis e similares e poder dispor desse cardápio em braille – que é nossa ferramenta instrucional, nossa forma de leitura”, disse Ronaldo Tavares, presidente da Socern, radialista, cego desde os 3 anos, quando contraiu sarampo. “Esse alcance significa dignidade, qualidade de vida, independência e autoestima”, afirma. O projeto é de autoria do deputado Walter Alves (PMDB). Foi reapresentado pelo deputado e atualmente espera entrar em pauta na Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJ). Após isso irá para votação em plenário. “O projeto é uma iniciativa da Socern. O custo desses cardápios é irrisório. Espero admissibilidade constitucional”, disse Walter Alves. Segundo Ronaldo Tavares o motivo da não aprovação anterior foi que “houve a alegação de que o público não pode interferir no privado. Pelo amor de Deus! Como o público não pode interferir no privado, se o estabelecimento privado funciona em lugar público? Colocações como essa não correspondem realmente ao bem comum”, protestou. “O que não pode são as pessoas cegas chegarem a um restaurante, ficarem na dependência de um garçom, que tem outras pessoas para atender e que precisa faturar em cima das comissões. Ele não estará preocupado em estar ali, lendo a todo tempo o cardápio para uma pessoa que não enxerga”, alegou.
A luta dos cardápios para a Socern é fundamental, bem como a do passe livre intermunicipal. A fundação conseguiu pautar um projeto, visando garantir a gratuidade do transporte intermunicipal para deficientes físicos. O deputado George Soares (PR) é o autor de um projeto de lei que contempla com a gratuidade no transporte os cidadãos portadores de ‘deficiência comprovada por laudo médico’, que se deslocam de suas cidades em busca de tratamentos de saúde. Também estão inclusos deficientes desempregados e comprovadamente carentes. “Apresentamos a proposta em Março desse ano, mas não foi aprovada na CCJ. Irei reapresentar a proposta em nova audiência pública. Será basicamente a mesma, mas enfatizarei o exemplo que ocorreu recentemente no Rio Grande do Sul (dia 13 foi protocolado naquele estado um projeto garante a gratuidade de passagens intermunicipais para estudantes gaúchos com renda mensal de até 1,5 salário mínimo). Sendo esse a reapresentação de mais um projeto vetado, Ronaldo revelou: “Alegou-se a  oneração dos cofres públicos. Mas na verdade, trata-se da falta de vontade política”. Para ele, a gratuidade para portadores de deficiência no transporte do interior para a capital não é assistencialismo: “É cidadania, qualidade de vida e uma reparação daquilo que o estado não cumpre em relação aos portadores de deficiência. Lutaremos por justiça social”. Na Paraíba e Bahia os deficientes dispõem da gratuidade no transporte intermunicipal.
Pesquisas apontam que aprox. 8% da população do Rio Grande do Norte apresenta deficiências físicas graves. Ao todo, 4% são cegos ou possui sérias restrições visuais. Os dados são do IBGE. Segundo Ronaldo, pesquisas de instituições de apoio a deficientes apontam também que 95% dos portadores dessas deficiências no país possuem baixo poder aquisitivo: “O estado não lhes garante a inserção no mercado de trabalho, educação qualitativa e acessibilidade. Como é que alguém lá do sertão do Rio Grande do Norte, cego, vai aprender a andar sozinho, a ler em Braille? E o mercado de trabalho, como eles serão inseridos? Sem treinamentos, sem preparo?” questionou Ronaldo.
Para esses deficientes, em seus variados níveis, as cidades carecem de estrutura para oferecer uma mobilidade independente e segura. As condições enfrentadas pelos cegos são das piores: em assuntos estruturais são verdadeiras barreiras arquitetônicas: calçadas esburacadas, obstruídas por veículos, falta acessibilidade dentro de edificações; de sinalização sonora dentro de ônibus (a exemplo do que ocorre em outras cidades) e placas com leitura tátil para essas pessoas- há apenas para os que podem ler com o olhar. Há ainda a falta de oportunidades no mercado de trabalho, comum a todos os portadores de deficiência. Empresas no estado não estão preparadas para acolher esses funcionários e falta a muitos deles preparo informacional para ingressar no mercado de trabalho.
Em Natal fica a sede da Socern. Está localizada em Natal, em um anexo no prédio onde funciona o Centro Clínico da Polócia Militar. Com 17 anos de existência, foi fundada em 01 de agosto de 1996 pelo próprio Ronaldo. Em 12 de Setembro a instituição e seu presidente foram homenageados na Câmara Municipal de Natal. A Sociedade promove cursos de leitura em Braille e treinamentos de locomoção para cegos. Sobrevive de doações, do trabalho voluntário (atualmente necessita de ledores e apoio a atendimento na biblioteca) e possui convênio com o SESC e o Hospital da Polícia Militar do RN. Nos dias 2,03 e 4, a Socern participará do Encontro Nordestino de Conselhos Municipais. “Somos basicamente uma entidade com o cunho reivindicatório”, atesta Ronaldo.


Saiba Mais

Dia Nacional da Luta de Pessoas Deficientes
A data foi promovida em 1982, pela proximidade com a estação da primavera e o dia da árvore, numa representação do nascimento das reivindicações de cidadania e participação plena em igualdade de condições.


Braille ou braile é um sistema de leitura com o tato para cegos onventado pelo francês Louis Braille no ano de 1827 em Paris.

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Natal por Canindé Soares

Canindé Soares   (Foto: Davison Cavalcanti)

A cidade de Natal é tema de uma exposição do premiado fotógrafo Canindé Soares no Natal Shopping. O artista selecionou 26 imagens de paisagens diversas que estão expostas ao público na loja nº 328.
As fotos estão em quadros emoldurados e à venda ao preço de R$ 380. “Essa exposição busca sintetizar Natal; o paisagístico, a arquitetura antiga, praias. A exposição retrata a cidade e seus diversos aspectos”, disse Canindé. No espaço, predominam imagens das praias e vistas aéreas da cidade. Estão expostas algumas das primeiras fotos feitas com câmera digital pelo artista, em 2002. “A direção do shopping me convidou para realizar esse evento e cedeu o espaço, a ambientação e iluminação. As fotos foram escolhidas por mim”, assevera.
Canindé Soares tem 53 anos, é casado, 2 filhos e é fotógrafo há mais de 35 anos. É natural de São Bento do Trairi. De origem humilde, lembra o primeiro curso de fotografia- feito por correspondência, mas não concluído por falta de dinheiro.
 “Hoje consigo viver da Fotografia. Cerca de 30% da minha renda provém da venda de imagens”, calcula. Canindé retrata eventos diversos e possui um acervo de imagens que são vendidas principalmente para o segmento de turismo, seguido de editoras de livros didáticos.  O fotógrafo ainda possui um blog e um site. No primeiro - blog Canindé Soares- ele divulga imagens dos trabalhos realizados (que são rapidamente postados). “Sou previamente contratado, vou lá, faço as fotos e posto no blog”, informou. O blog tem uma média de mil acessos diários. O segundo é um site que ainda está em desenvolvimento e pretende ser lucrativo: “Será um banco de imagens virtual, dividido em diversas temáticas do RN, à venda: gastronomia, artesanato, religiosidade, praias. Postamos 500 imagens até agora e iremos ampliar esse número. O internauta encontrará imagens sobre qualquer assunto relacionado ao RN”, informou.
Mais conhecido pelas paisagens evocando as belezas do estado, Canindé também tem trabalhos com enfoque mais foto-jornalístico ou documental: “Tenho diversos trabalhos nessas áreas, mas não são imagens divulgadas com muita evidência”, refletiu. O fotógrafo Ney Douglas do Novo Jornal acrescenta: “É um cara que não está preocupado com o ‘contemporâneo’. Está preocupado com a fotografia, é um entusiasta da fotografia, que ele divulga muito bem”.

Tem repercutibo bem um trabalho realizado para o portal UOL. Canindé passou dez dias fotografando paisagens potiguares, percorrendo os principais roteiros de lazer, gastronomia e cultura do estado. O trabalho rendeu 7 álbuns com os temas “Natal”. “Gastronomia”. “Pipa”, “São Miguel do Gostoso”, “Maracajaú”, “Centro Histórico” e “Praias”. Semana passada, ele recebeu uma ligação da governadora Rosalba Ciarlini, que o cumprimentou pela repercussão do trabalho de divulgação do estado. “Uso bastante a internet para divulgar as maravilhas do estado”, afirmou.

Em Novembro Canindé pretende lançar seu terceiro livro de fotografias. O título será o mesmo do lançado em 2012: Natal, por Canindé Soares. “O projeto está em fase de finalização. Haverá, no máximo 100 imagens. O livro será impresso em acabamento especial; as imagens terão legendas. Quero fazer numa embalagem diferenciada, própria para presentear”, revelou, visando o período natalino. “Esse novo livro foi editado com base nas críticas recebida dos fotógrafos Orlando Brito e Marcelo Buainaim”.
O livro anterior foi bancado por investimento do fotógrafo e por meio de empréstimos a amigos: “O livro vendeu bem e eu consegui viabilizar rapidamente o valor gasto”. Para essa edição quero obter patrocínios. Mas se não relar patrocínios? “Aí farei vendas antecipada para os amigos”, disse.
Ele evoca as amizades: “A torcida muito grande de amigos tem mudado a minha vida.” Postei ontem uma foto do estádio Arena das Dunas e, em menos de 24 h teve quase sete mil visualizações. Muitos companheiros ajudam na divulgação do meu trabalho.
O fotógrafo orgulha-se de títulos recebidos no estado. Recentemente, o de Cidadão Macauense (2013). Em 2010 recebeu o título pelo município de Natal.
Mais prêmios: esse ano Canindé foi um dos vencedores do 38º Prêmio Abril de Jornalismo, com uma fotografia publicada na em uma reportagem da Revista Nova Escola, 2012. A premiação foi em Abril.
“Os últimos dez anos foram extremamente importantes para mim. Nessa trajetória, tive trabalhos importantes. Fui contratado para fotografar, com exclusividade o atleta David Beckham quando veio a Natal. Era eu e um fotógrafo da Agência Reuters. Ele fazia a fotografia internacional e eu fazia as imagens para distribuir à imprensa nacional. Ele já fez as fotos de uma turnê da cantora Marisa Monte pelo nordeste e fez cobertura das visitas de Pelé (2006) e Bill Clinton(2010) a Natal, com exclusividade. “Nessas ocasiões, sempre me coloco na posição de fotógrafo. Mas o Pelé veio puxar conversa”, riu. 
Canindé também profere palestras em universidades sobre Fotografia, Fotojornalismo e mercado de trabalho. Ele aproveita para contar aos estudantes um pouco sobre sua origem e percalços na carreira. “Diante do que conquistei hoje, não tenho sonhos. Consegui muito mais do que eu sonhava”, disse.
Canindé disse que a exposição tem recebido elogios por parte do público, mas isso lhe traz certo incômodo: “Gosto do olhar crítico Quero os elogios, mas também a crítica. Não sei se as pessoas receiam me desagradar, mas eu acho muito bom receber também uma crítica construtiva”, explica.
O fotógrafo acredita que ganha muito aquém do que deveria diante do trabalho que faz, mas garante que está satisfeito: “Costumo dizer: ‘Enquanto alguns amigos vão para a Europa, prefiro o interior do Rio Grande do Norte e estou feliz dessa forma’. Se a gente ficar pensando nessa história de consumir, comprar, você acaba não sendo feliz”, atenta.


A exposição vai até o dia 14 de Outubro.

Segue abaixo algumas imagens do artista:

O Blog está sempre atualizado: http://canindesoares.com/
O Banco de Imagens do RN: http://www.csfotojornalismo.net/





sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Perfil: Christiano Couceiro

UM GRITO DE FELICIDADE

(Publicado no Jornal A Esperança)

No dia 5 de Dezembro de 2005, o Jornal Hoje (Globo) exibiu na TV as imagens de um impressionante e comovente resgate ocorrido na rodovia Fernão Dias, em Minas Gerais. A pequena Júlia, de seis meses de idade, foi salva com leves lesões das ferragens de um carro que foi imprensado entre duas carretas. Pelo uso da cadeirinha. No acidente, os pais da criança, que estavam nos bancos da frente, morreram na hora. O resgate dramático do bebê durou duas horas. As imagens na época tocaram o jornalista Christiano Couceiro, que tinha 29 anos. A cena que marcou e transformou sua vida: A criança sendo erguida das ferragens pelos braços do bombeiro Davi que, entregando-a nas mãos dos paramédicos, deu um grito de felicidade.

O Tenente Christiano Couceiro
Na manhã do dia seguinte, Couceiro dirigia-se para o trabalho. O balanço de sua trajetória até ali, indicava que ia tudo bem: casara há pouco tempo com a farmacêutica Raissa Couceiro, a carreira de jornalista consolidava-se, a vida financeira prosperava, amava a profissão e, enfim, saboreava a colheita que plantara nos noves anos de atuação como jornalista. Mas as imagens daquele salvamento - em especial a expressão do bombeiro Davi não saíam da cabeça. Em Demian, Herman Hesse escreveu que o acaso não existe. “Quando alguém encontra algo de que verdadeiramente necessita, não é o acaso que tal proporciona, mas a própria pessoa; seu próprio desejo e sua própria necessidade o conduzem a isso.” Durante aquele percurso, Couceiro leu uma faixa que anunciava: “Concurso Corpo de Bombeiros”. Naquele momento ele tomou a decisão que mudaria completamente a sua trajetória: iria tornar-se um Bombeiro.

Resgate de Julia está disponível em vídeo no Youtube









Naquele ano, 2005, já eram oito anos trabalhando em televisão. Formado em Jornalismo pela UFRN, em 2001, Couceiro iniciou a carreira quando ainda era estudante de jornalismo, na TV Potengi, afiliada a Rede Bandeirantes. Iniciou na área de Esportes, mas não se identificava com o futebol - a preferência dos programas do tipo. “Gosto de esportes alternativos, aqueles mais amadores. Os programas esportivos privilegiam o futebol e não destacam atletas de outras modalidades. Mas foi uma porta que se abriu e eu me agarrei a ela”, disse o Tenente Couceiro que gosta de corridas de rua e é faixa-preta em jiu-jitsu. Tempos depois, em 1998, o chamaram para fazer uma transmissão ao vivo do “De Olho na Folia” – ele entraria no ar fazendo a cobertura do Carnatal. Os diretores gostaram da espontaneidade do estudante e da forma descontraída com que abordava pessoas e entretinha o telespectador. Outros programas foram aparecendo, com conteúdos variados: desde a cobertura de rallys à agropecuária: Couceiro fez reportagens para Os programas “Garagem”; Arrastapé; Viva Verão; Trilha do Sol, Agro Potengi - esse último deixou saudade: “Eu adorava fazer o Agro Potengi. Como um bom jornalista, eu não gosto de rotina. A gente tinha sempre uma história diferente para contar e nada melhor do que viajar pelo interior do RN, conhecendo criações de diferentes tipos de animais, plantações, processos de criação, de produção, o comércio. Lembro da turma do Seridó, que criava bode de uma forma muito curiosa. Aquilo não fazia parte do meu dia a dia e eu me entregava, de fato, para aquelas situações”, disse o tenente de 36 anos.


Mas o que mais marcou sua imagem na televisão foram, de fato, as coberturas dos Carnatais. Por anos, a TV Potengi era a única emissora que fazia essa transmissão e a grande audiência deu a Couceiro uma grande projeção.  Mas ele não queria ficar apenas na área do Entretenimento e resolveu seguir outras linhas editoriais: atuou no Acontece Natal e fez reportagens para o programa Linha Dura, que na época era apresentado pelo hoje vereador Luiz Almir. O Linha Dura era um programa jornalístico, exibido ao meio dia que cobria desde problemas da cidade a temas como o Esporte. Luiz Almir relembra a época que trabalhou com Couceiro: “Muito competente em tudo o que faz. Ele sempre deu conta do recado. Para ele não havia tempo ruim e nunca foi preguiçoso. Tenho muito apego, estima. O pouco que sei hoje, passei para ele. Se há alguma coisa sobre os bombeiros nos meus programas, eu chamo ele para participar.”

“Algo muito forte me chamou.” Antes da mudança radical, a carreira de Couceiro estava em ascensão e ele fazia o que gostava: dirigia o Jornal da Câmara Municipal de Guamaré, um impresso mensal de seis páginas criado por ele; era jornalista na TV Potengi e diretor de Comunicação Social da Ceasa. Devido à projeção que a televisão proporcionava, também fazia campanhas publicitárias para a loja Miami Imports. Após ver a reportagem na tevê e decidir ser bombeiro, Couceiro afastou-se dos meios de comunicação para se preparar para o concurso. “Resolvi fazer uma reviravolta na minha vida, mesmo passando a ganhar menos, financeiramente. Foi a partir daquele vídeo do resgate que eu acreditei. Mesmo sem estar a muito tempo sem estudar, faltando poucos meses para a prova do concurso, algo muito forte me chamou: ‘Vamos ser bombeiro’. Com a aprovação, fui morar no Pará, para cursar os três anos da Escola de Formação de Oficiais (no RN não há academia e todos os bombeiros da região são formados em outros estados)”. A esposa Raissa se mudou para o Pará um ano depois, em 2007.
Ao fim do curso, Christiano Couceiro conquistou a 1ª colocação geral, numa disputa com 56 cadetes de quatro estados, alcançando a pontuação média de 9.65, número histórico nos 17 anos de existência da Escola de Formação de Oficiais no PA. “Foi um resultado que me trouxe muita alegria. O que me fez lutar por ele foi o sentimento daquele salvamento que eu vi na televisão e que me motivava diariamente. Havia dificuldades na vida militar, mas eu não enxergava porque estava motivado. Era a vontade de ser e fazer o mesmo que aquele bombeiro fez. Conseguir salvar alguém. Então os três anos no Pará foram muito bons. Sofridos, mas bons de lembrar depois que passam”.

“Agora, você está realmente um bombeiro”
O coração bateu forte quando entrou na viatura de combate a incêndio pela primeira vez como bombeiro formado, ao retornar a Natal. “Ouvi a sirene tocar e pensei: ‘E agora?’ A cada dia, um bombeiro fica como chefe da guarnição e naquele dia eu chefiava a operação. Naquela ocorrência, enquanto eu me deslocava, ao meu lado não tinha mais instrutor, não tinha mais professor, não tinha mais ninguém para me orientar, naquele momento era eu que deveria ir na guarnição, então aí você sente o tamanho da sua responsabilidade, agora você está realmente um bombeiro”.
Atualmente, o Tenente Christiano Wanderley Couceiro Costa exerce a função de assessor de comunicação do Corpo de Bombeiros do RN promovendo junto a população ações como a “Campanha Praia Segura, “Campanha São João Seguro”, “Caminhada da Mãe Potiguar”. “Qualquer campanha de publicidade ou de divulgação, que a população confia no que eu estou falando, faço questão de estar dentro acompanhando, para ver o resultado, pois é preciso dar um retorno para quem está ajudando. Não é só uma assessoria de divulgar uma informação. É também abraçar as consequências que essa comunicação gera dentro da instituição.”
A 19ª Corrida Soldados do Fogo foi um evento realizado pelo Corpo de Bombeiros Militar do RN, na tarde do último dia 20 de Julho. Foram 1.300 atletas inscritos e um grande público esteve presente em frente a sede da corporação, em Natal. O Tenente Christiano Couceiro estava presente, apresentando o evento, de óculos escuros e microfone em mãos, andando por todos os lugares, subindo e descendo do palco montando na área lateral à sede da instituição, resolvendo os problemas que surgiam de última hora e divertindo o público formado por pessoas de todas as faixas etárias, que correspondia, animado: “Esse é aquele cara da televisão”, comentavam alguns. Christiano Couceiro estava muito a vontade e parecia ser incansável.

O Tenente na Corrida Soldados Do Fogo

Salvamentos
“Houve um incêndio em uma casa no bairro Satélite. Tiramos um senhor vivo de dentro da geladeira. Foi o único local que ele encontrou para se salvar, para não respirar a fumaça. Ele se salvou porque se jogou dentro de uma geladeira. E esposa dele, infelizmente, apesar das manobras para ressussitá-la, não sobreviveu, porém conseguimos fazer com que os órgãos vitais dela permanecessem ativos para que ela pudesse salvar outras vidas com a doação de órgãos. Foi uma ocorrência marcante.”

 Assessoria de Comunicação do Corpo de Bombeiros
“Foi um desejo articulado. Eu quando voltei a Natal, comecei a fazer algumas divulgações por conta própria. Utilizava o espaço da corporação para divulgar ações, tirava fotos, ajudava a atualizar o site. Até que, em 2009, o comandante da época, o coronel Cláudio Christian da Silva, começou a me considerar já o assessor de comunicação. Mas na nova gestão, a do coronel Elizeu Dantas, foi dado um corpo melhor a essa assessoria, com melhor estrutura e compra de equipamentos. Foi designado que eu saísse do serviço operacional para que tivesse uma dedicação integral na comunicação oficial da instituição.”
Tenente Christiano Couceiro e o Capitão Elizeu Dantas


A Televisão
“Até hoje tem gente que o para na rua para perguntar se eu voltarei à televisão. Em algumas entrevistas que o Comandante Geral concede, a própria imprensa pede para que ele me autorize, só que o regulamento não permite. Recebo até hoje convite por escrito da direção da TV Bandeirantes para voltar. Nos três anos que eu estava no Pará, os convites vinham do estado de São Paulo, da Band SP, perguntando se poderia fazer uma articulação com o governo, no caso, solicitar à governadora. Eram coisas que me deixavam: “Caramba! Será que é isso tudo mesmo? O pessoal queria mesmo? Porque é tão fácil você substituir alguém hoje. Há um respeito por mim e acredito que tenha sido em função de eu tratar as coisas, sempre com muita emoção. O jornalista tem que ter uma linguagem fácil, tem que ter afinidade e sinceridade com o público. Sei que eu não agradava a todos e ouvia as críticas. Aliás, as principais críticas vinham de casa.”

Sonhos
“No plano pessoal, sonho ter filhos. Em breve, voltarei à vida que tinha em 2006, tendo a minha casa própria, sair do aluguel. No momento eu e minha esposa vivemos na casa de familiares, aguardando a entrega do nosso apartamento. Como todo profissional que quer crescer, meu objetivo é chegar a ser o Comandante Geral do Corpo de Bombeiros. Para mim, pode ser uma coisa que dure 25 anos, ou pode ser que eu nunca chegue lá, porque é mais do que você trabalhar e se mostrar um bom profissional: depende de uma indicação do governador ou governadora do estado, da época. Então, se eu merecer ou tiver capacidade pra isso que eu possa ser um dia.”

domingo, 30 de junho de 2013

Abrigo Pede Socorro

Publicado no Jornal A Esperança

Instituto Juvino Barreto precisa de doações e voluntários

A voluntária Carolina (à direita) e Creuza (Foto: Arquivo Pessoal/ Carolina Outeda)

O maior abrigo de idosos do estado do Rio Grande do Norte, o Instituto Juvino Barreto, vive o período de estabilidade administrativa, após superar uma crise em sua gestão estrutural, iniciada em 2010. A instituição presidida pelo padre Inácio Teixeira agora enfrenta uma crise financeira, devido ao atraso no recebimento de verbas do estado e a falta de donativos, que tem deixado o Juvino Barreto em uma situação delicada.

Há mais três meses a folha salarial dos funcionários está atrasada. O estado não repassa em dias a verba para o instituto. Isso repercute na qualidade da assistência aos idosos. Desestimulados, parte dos funcionários faltam ao serviço e há piora nos níveis de atendimento, higiene e limpeza do abrigo. Os problemas não afetam diretamente a qualidade na alimentação dos idosos, uma das prioridades da instituição, porém há demandas específicas da pessoa idosa, como medicamentos e alimentação dietética, por exemplo.

Além da verba recebida pelo estado, o Instituto Juvino Barreto se mantém com as doações em dinheiro e alimentos por parte da população. Parte dos idosos também contribui com uma parcela dos rendimentos da aposentadoria para o custeio da entidade. Cabe ao Conselho Municipal do Idoso ou ao Conselho Municipal de Assistência Social estabelecer a forma de participação, que não deve exceder 70% dos benefícios que os idosos recebem. No Juvino Barreto, essa contribuição é em torno de R$ 460,00.


A freira Enilde Leite, vice-presidente do abrigo, diz que as doações diminuíram consideravelmente, devido aos problemas administrativos ocorridos no passado, que culminaram na intervenção do instituto pelo Ministério Público, em Junho de 2010. No ano seguinte, a intervenção chegou ao fim, mas problemas internos vieram à tona, obtendo grande repercussão na mídia e intensificando os danos à imagem da instituição. As doações ao instituto despencaram. No telemarketing, a angariação de donativos caiu 80%. As doações recebidas através de débitos nas contas de água da Caern ficaram em torno de dois mil reais- valor que se mantém até hoje. Um número baixo, se comparado ao número de habitantes da grande Natal. 

Durante a crise, as atividades eram mantidas a duras penas. Por dia, gasta-se entre mil e dois mil reais para servir as seis refeições diárias dos idosos, mais a alimentação de funcionários. Eram em torno de setecentas refeições diárias. O abrigo adquiriu dívidas. A assistente social Célia Costa diz que os moradores do abrigo são exigentes: sentem-se pagantes e cobram boa alimentação e conforto no lar.

O diretor administrativo da instituição, João Rodrigues, critica a postura do estado: “As mazelas são as mais adversas. Não há interesse do poder público. É impossível você manter um idoso com R$460.00, mas o município entende que é. Aí tem que ter seis refeições por dia, atendimento médico 24 horas. E aqui os nossos idosos são pessoas excluídas. Nenhum deles possui um alto padrão de vida. Ao contrário: tiraram deles lá atrás. Eles chegaram ao fim da linha, muitos estão sequelados. E vão para onde? Para o Juvino Barreto e as demais casas para idosos. E há uma questão: o poder público e os orgãos de controle apontam a despesa e não aponta a receita. E aí há um desequilíbrio monstruoso”. João defende a construção do abrigo público pela prefeitura. Em meio aos apuros que o abrigo enfrenta- pouca verba disponível para a manutenção do abrigo e pagamento de salários de trabalhadores, dívidas, diz que hoje preferiria o fornecimento de profissionais pelo poder público a verbas.


O maior abrigo de idosos do RN possui atualmente 101 moradores, sendo 63 mulheres e 39 homens. As mulheres sempre representaram a maioria nos asilos. Vivem mais e algumas explicações para isso são o menor consumo de álcool e tabaco e pela relação mais estreita com os serviços de saúde. São mulheres, duas das moradoras mais antigas do abrigo, que lá vivem há mais de 25 anos e também a moradora mais velha, que tem 103 anos. 

Há um fluxo de familiares que fazem visitas frequentes, assim como aqueles que lá abandonam o seu familiar. Os assistentes sociais precisam ligar para lembrar a esses que há um idoso na casa. Alguns são sozinhos na vida. É o caso daqueles que foram encontrados nas ruas, sem documentos, sem familiares conhecidos.

As instalações físicas hoje dispõem de um pátio frontal (jardim), área de lazer (inclusive para atividades comemorativas), sala de televisão, sala de trabalhos manuais, bazar, salão de beleza, sala de estágio (fisioterapia e terapia ocupacional), capela, lavanderia industrial, câmera de lixo hospitalar e comum, farmácia, posto de saúde, salão para velório, secretaria, diretoria, sala de telemarketing, cinco pavilhões (três femininos e dois masculinos), além de quatro vilas.

No abrigo os idosos tem vida ativa. Recreação física, arte-terapia, fisioterapia, além dos cuidados de voluntários e visitantes, que sempre estão por lá. Eles também excursionam, vão à praia e festinhas proporcionadas em parcerias firmadas com o abrigo, que ajuda a arcar com os custos de transporte e operações. O abrigo recebe visitas frequentes desde excursões escolares a grupos musicais. A música, o folclore e a dança lideram a preferência dos moradores do abrigo. Adoram cantar, dançar. Nos eventos, a distribuição de lembrancinhas, presentes e lanches também leva muita alegria aos idosos do abrigo.

A freira Enilde Leite enfatiza a importância do apoio da sociedade. Doações poderão ser em alimentos, material de higiene e limpeza, dinheiro e serviços. O trabalho voluntário é muito importante: “Os idosos necessitam de carinho. Gostam de conversar, receber visitas. O trabalho de voluntários e o apoio que recebemos é sempre bem vindo.”


O Voluntariado


Na área de lazer, velhos e estudantes de enfermagem exercitam-se em círculo, jogando de mão em mão uma bola de plástico. Alguns deles esforçam-se para não deixar a bola ir ao chão. O que vale ali é se divertir e treinar a coordenação motora. E quem coordena essa atividade é o professor Pedro, voluntário do abrigo há seis anos e querido dentro do Juvino Barreto. Sempre que vai à instituição, anda pelos corredores, entra nas enfermarias convidando para fazer atividade física os idosos – os que já o esperam e os mais indispostos. Sempre próximos aos moradores mais ativos estão os cadeirantes, recebendo atenção de terapeutas e voluntários. Lá dentro, são classificados como “dependentes”. Os cuidadores buscam inseri-los em várias atividades. O trabalho conjunto de profissionais, voluntários e as doações recebidas são os responsáveis por grande parte da sustentação da qualidade do abrigo Juvino Barreto.


Olga, de blusa estampada, ao lado de José e cuidadores (Foto: Arquivo pessoal / Olga Lacuesta)


Os velhos criam vínculos fortes com os voluntários. Muitos destes não encontram palavras para definir a experiência de doar-se em prol do bem estar desses idosos. Olga Lacuesta, uma uruguaia de 68 anos, é aposentada e voluntária há quatro anos, junto com a filha, Carolina e uma amiga. No instituto ela doa aos velhos o que foi o seu ganha-pão durante parte de sua vida: Olga é massoterapeuta e com as mãos leva tranquilidade e conforto fazendo massagens nos moradores do asilo. Também lhes serve a sopa no jantar. Diz que realiza um sonho: “Trabalhar com idosos é um prazer. A doutrina espírita da qual sou seguidora, encaixa-se muito bem com o trabalho voluntário. A pessoa pode não falar, conseguir escrever, mas a expressão de felicidade quando nos reconhecem não tem preço. A retribuição é o olhar, o carinho. Olga canta, dança e alegra o ambiente. Carolina, 32, zootecnista, filha de Olga não esquece o que ouviu certa vez de uma senhora reservada que um dia aproximou-se dela para dizer: “Que coisa boa sinto quando você chega. Tudo isso aqui muda.” Muitos sofrem pelo abandono dos próprios filhos.





José Leônidas Vieira, 82 anos, é um dos moradores mais alegres do Juvino Barreto. Tem onze filhos e cinco netos, com quem conversa diariamente pelo celular. Conta que ao se separar, ficou triste e quis ir embora. A filha o apresentou o abrigo, que o agradou. Embora sinta saudades de casa e dos filhos é feliz onde vive. Orgulha-se das atividades que realiza na instituição: ele apresenta o lugar aos visitantes, recebe donativos e ajuda o padre nas missas realizadas na capela do abrigo. Diverte-se com as atividades organizadas dentro e fora do abrigo: gosta de bingo, dançar forró, lanches e fazer amizades.

 Como ajudar o Instituto Juvino Barreto:

Visitas: Diariamente, nos horários: 10h às 11h e 14:30h às 16h.
Entrega de donativos: Diariamente nos horários: 8h às 12h e 14h às 17h.

 Doações em dinheiro para o Instituto Juvino Barreto poderão ser feitas através de depósitos para conta jurídica da instituição:

Agência: 2870-3
Conta: 5209-4

 Doe através da conta de água:

O Instituto Juvino Barreto possui convênio com a Caern. O doador pode fazer o cadastro no site e escolher a quantia a ser doada mensalmente. O valor será debitado nas contas de água da Caern e o doador poderá escolher tanto a quantia a ser doada, como também a quantidade de meses de doações. Acesse o site da Caern:


Ou acesse o link:


sexta-feira, 7 de junho de 2013

Ali, o andarilho leitor, filho de Alá


Ali, o andarilho leitor, filho de Alá

Ele é um homem sem lar, que tem fome, aspirações e que segue Maomé, o profeta.

Por Adriana Brasil

O

 homem velho, franzino e de olhar misterioso anda em passos lentos carregando dois pesados sacos, pendurados pelas abas nos ombros. Costuma ser visto pelas ruas usando na cabeça um capacete amarelo, daqueles utilizados na construção civil. Há anos não apara os cabelos e a longa barba. Assim é Ali, um andarilho vive nas ruas de Natal e Nova Cruz.
Dorme em estacionamentos de clínicas médicas ou em rodoviárias. Nessas cidades, percorre as distâncias a pé. Diariamente segue o trajeto Rodoviária de Natal> Ceasa> Supermercado Carrefour (no Mirassol), gastando, em média, uma hora e meia de caminhada. A pé, vai quase todos os dias ao Atacadão, na BR-101, que liga os municípios de Natal e Parnamirim. Trabalhadores das imediações referem-se a ele como “aquele velho que anda muito”. Veste camiseta, short e chinelos. Passa dias sem tomar banho, nem trocar de roupa mas conserva traços delicados no rosto castigado pelo sol.

Rabiscos sobre o islamismo

Tem olhos castanhos, cansados, nariz afilado e face de maçãs protuberantes. O corpo curvado, franzino. Nunca gostou do seu nome de batismo, Mário Sena. Escolheu Ali por causa da doutrina islâmica, que admira. “Ali é o nome de um primo do profeta Muhammad”, explica. Com uma caneta, ensina como escrever Alá. Soletrando, escreve em um papel a maneira correta:  “Al-ilãh”, na versão primitiva. Alegra-se quando o assunto é Islamismo. Diz que não segue todos os preceitos da religião, mas gostaria de conhecer o local em Natal onde soube que reúnem-se muçulmanos. Descobrir Alá o fez sentir paz e alívio. Recita alguns preceitos de Maomé a título de ensinamento. Tenta descobrir o número de uma caixa postal com quem possa comunicar-se sobre a doutrina e, quem sabe, ganhar livros. Leva consigo duas edições de bolso: uma pequena biografia do profeta Maomé e outra com a história do Islamismo. Leu os dois e fez anotações a caneta em folhas velhas de rascunho. Um dia, quem sabe, conhecerá Meca.


Ali fala polidamente, é cortês e se expressa bem. Alimenta a mente com leituras. Chega a ficar horas do lado de fora de bancas de revistas, parado, em pé, lendo publicações que jornaleiros o emprestaram. São poucos os que fazem isso. E um dos poucos favores que pede é para ler. Aborda educadamente os funcionários das bancas e alguns permitem que ele manuseie algumas revistas e livros que não pode comprar.

Ali dentro do Carrefour

“Não sei quando poderei vir deixar os R$4,90" Mas ele compra, sempre que dá, edições da revista IstoÉ Dinheiro: assuntos relacionados a finanças e empreendedorismo o interessam. Para pagar aquela edição, que custava R$ 14,90, ele não tinha todo o valor. Na banca da qual que é cliente, entregou R$ 10 à balconista, que lhe deu um recibo. Disse, ao se despedir: “Não sei quando poderei vir deixar os R$4,90 que faltam, mas espero que seja logo”. Ele costuma pagar suas revistas e jornais em parcelas. Entre outros títulos preferidos estão os ligados a história, religiões, culturas. Compra também os exemplares de Aventuras na História e Caras- gosta das fotografias e dos brindes que vem nessa revista.
O dinheiro que sustenta a compra de revistas e livros provém da venda dos produtos que compra no “Atacadão” e revende em Nova Cruz: geralmente água sanitária e bolachas.  Gasta, em média, R$50. Despacha o pequeno volume no porta-malas de algum taxista amigo que seguirá a caminho daquela cidade. Orienta-o: “Só toma cuidado para não amassar as bolachas, senão eu não vendo”, explica. Viaja de ônibus para aquela cidade, pagando o valor da meia passagem. Tem 63 anos mas não se beneficia da gratuidade no pagamento do transporte,  pois ele não tem documentos.

“A Mulher Mais Nojenta Do Mundo”. Ele anda muito. E isso o faz sentir-se bem. Abre um sorriso para dizer: “Ora, prezada amiga, andar é como viajar, você conhece vários lugares, pessoas, aprende.” Não tem documentos, apenas a certidão de batismo. Em Nova Cruz, onde costuma andarilhar é possível resgatar um pouco mais da história de vida de Ali. Nessa cidade, ele tem o respeito de velhos conhecidos e algumas inimizades. Entre elas, a da mulher que acusa ter lhe roubado o lar, em 2002.  Já era um andarilho, vendedor de confeitos e agulhas. Segundo ele, uma mulher da cidade, conspirou para tomar-lhe a casa em que morava só e que estava em nome da sua mãe, que vivia com outros parentes. A tal mulher movimentou polícia e pessoas próximas para interná-lo no Hospital psiquiátrico João Machado, em Natal, também conhecido como Hospital da Colônia. A partir daí, Ali nunca mais teria a chave da casa de volta. “Aquela mulher”, diz ele alterado, com o dedo em riste, “a mais nojenta do mundo”, e citava o que se fofocava na cidade: “nascida em berço de cabaré”. Acusa-a de roubar-lhe a escritura da casa, quando conseguiu interná-lo no hospital psiquiátrico, com a ajuda de policiais da cidade.


“Quando cheguei ao Hospital da Colônia Partiu de Nova Cruz para Natal em uma viatura policial em direção ao Hospital João Machado. Ele conta: “Lembro que era onze horas da manhã, horário de verão, quando cheguei ao Hospital da Colônia, numa viatura da polícia. O cabo veio a viagem toda mexendo comigo. Ao entrarmos na recepção do hospital, ele disse a um rapaz: “Ele bate na mãe dele!” O recepcionista olhou para mim por alguns instantes e disse: 'Policial, ele está tão calmo. Não parece que ele bateu na mãe, não” O soldado tirou um papel e mostrou: ' Tá aqui o que o juiz manda! O rapaz leu e fez a minha ficha.”
No atendimento de emergência, Ali foi colocado sentado de frente ao médico:
 “O cabo novamente falou: ‘Doutor, ele bateu na mãe dele’! Eu então ergui o dedo e fiz sinal de negativo: Nada disso! Aí, quando eu fui falar: 'Doutor, eu NUNCA bati em minha mãe, é mentira dele! Eu senti que alguém espetou uma coisa no meu braço, me furando. Eu continuei a falar: ‘Doutor aagagburgh...'  mas a minha língua dobrou, caiu, fui pra frente e meus olhos fecharam. Apaguei. Nem deixaram eu falar. Um médico que nem me conhecia, disse: ‘Você não vai sair daqui nunca, você é um perigoso.’ E fiquei um tempo por lá ainda. Até que recebi a visita de duas pessoas da minha cidade, que conversaram com um médico de lá, o doutor Celestino, que disse: ‘Você não tem nada, não há motivos para permanecer aqui.’ E me deu a alta”.
No período que foi internado sentiu a dignidade esvair-se. Reclama que literalmente chegara vestido, de camisa, calça comprida e sapatos e saíra de lá de bermuda e de pés descalços. “Apanhei muito de toda sorte de drogados, vagabundos que tinha lá. Fui roubado, tomaram de mim o pouco que eu tinha!”
O pouco que possui está contido dentro dos dois grandes sacos que carrega por onde vai. Se refere a eles como “as bagagens”. É imprescindível andar com elas. Um cuidado para que o passado não se repita: já guardou suas coleções de revistas e livros dentro de caixas de papelão ou isopor, lacradas. Pediu a conhecidos que guardassem em suas casas. Um dia voltaria para buscá-las ou revê-las. Ao retornar, descobriu que os objetos foram jogados no lixo. “Não queria mais lixo por aqui!”, diziam. “Faltava espaço e aquilo era coisa velha, não prestava!” Ali reagiu com revolta. Reclamou os seus direitos de proprietário. Mas recebeu em troca um portão fechado na cara pela indiferença.

Some quando cai dentro de mim.” O homem alimenta-se apenas de água, pão e frutas. Não gosta de pedir esmolas, nem comida. Dói ouvir xingamentos e acusações: “Drogado!”, “Vai gastar é com bebida!”. O comportamento reservado, sem vícios, andando pelos mesmos lugares, carregando seus sacos pesados, inspira a solidariedade de alguns. Todos os dias, recebe quatro pães de uma padaria. Um comerciante do Ceasa dá bananas. São esses alimentos que come ao longo do dia e guarda para outras necessidades. Ele diz: “Criatura, a fome é tanta que o pão que eu como, some quando cai dentro de mim.” É a fome o cerne da sua vida. Atormentado por fraquezas, tonturas, dores pelo corpo, acredita que não viverá tanto quando sua mãe, que morreu aos 93 anos. Costuma desmaiar na rua. Tem cicatrizes dessas quedas, nos braços e nos joelhos.

 No supermercado Carrefour recebe atenção de alguns funcionários que frequentemente lhe reservam um lanche, com bolo e refrigerante, que ele come em uma mesinha na praça de alimentação do supermercado. “E como está a mão, sarou?” pergunta a atendente dentro do supermercado. Ali havia tropeçado e caído, recentemente.

“Só viajará após o jornal de Dilma sair”. Faz algumas semanas que Ali planejava ir para a cidade de Nova Cruz. Adiou a viagem em função da compra de um exemplar do jornal Folha de Pernambuco, a edição que sairia em 21 de Maio, que compraria na rodoviária. É que nessa edição ele espera ler a cobertura da visita da presidente Dilma Rousseff, que viria inaugurar um estádio para a Copa do Mundo no estado de Pernambuco.  Decidiu que só viajaria após comprar o seu exemplar, para não correr risco de perdê-lo. E assim foi feito. Admirador de Dilma, do partido PT, conta que só não votou nela por não ter documentos. Fala com carinho de Fernando Mineiro, Fátima Bezerra e Lucena - políticos do Rio Grande do Norte.


 “Não fico em lugar por onde anda bandido” A noite cairá daqui a pouco e Ali vai dormir daqui a algumas horas, quando chegar com sua inseparável bagagem na rodoviária. O local dessa noite é distante, mas ele prefere não correr riscos. Dormia no estacionamento de uma clínica pediátrica e recentemente soube que um fugitivo de um presídio estaria perambulando pelas imediações. Chegou a ver o tal sujeito empurrando um carrinho de mão próximo ao ponto. E ele não fica em lugar por onde bandido anda. A dormida é sobre um pedaço de papelão, onde crê que seja local seguro. Ele tem um lençol curto que ou lhe cobre os pés ou lhe cobre a cabeça.

Quando Ali está quieto, parado ou andando pelas ruas, pensa na fome que sente e na vida que tem agora. O passado é um tempo doloroso. A história de sua vida contém hiatos. Mantém laços de respeito e cordialidade recíproca com as pessoas do presente da vida - os conhecidos que ajudam, os que saúdam, os que não torcem o nariz quando passam ao seu lado.

Diz que não espera muito da vida. Em alguns momentos ri muito, ao falar do presente e do que gosta de fazer. São raros sorrisos e é especialmente agradável vê-los brotar do rosto de um homem atormentado por tristezas e restrições.  As andanças e descobertas que surgem na vida de Ali alimentam sua alegria: o sorriso é aberto, os olhos castanhos enchem-se de brilho e ele ainda se emociona.




Relato da repórter

Uma vida sublime e de privações


Já o tinha visto no supermercado Carrefour, próximo ao Natal Shopping. Me chamava a atenção o capacete de construção civil, a longa barba... Quem seria aquele homem? Ele parecia muito reservado, sentado, sozinho, em uma mesa distante na praça de alimentação.  Quando surgiu a proposta do perfil, pensei nele. Andei algumas vezes pelo supermercado, a procurá-lo. Um dia o vi em pé, parado. Pedi licença, apresentei-me, perguntei o seu nome e fiz a proposta de escrever a história que ele quisesse me contar. Ele riu. Eu disse que seria bom para nós dois: eu gostava de escrever e escreveria uma história que ele me contasse. Seriam coisas da vida dele. E ele iria gostar também, pois poderia falar o que quisesse e ao fim teria um perfil sobre si. A essa altura ele já tinha me contado que gostava de ler. “O que o senhor acha, seu Ali?” Pediu que sentássemos, pois o joelho não estava muito bom. Começou a falar de si. Me sensibilizei com o que parecia mágoa: quando jogavam fora as caixas de objetos que ele pedia o favor que guardassem. Pedaços da vida dele, que não tem onde deixar em segurança. Confiou em poucas pessoas que trataram suas coisas como velharias e as jogaram fora. Não tem familiares próximos, conhecidos. O jeito é andar com dois sacos grandes pendurados nos ombros. Sacos que pesam e que sobrecarregam as costas e os joelhos de homem de 63 anos. Esse esforço é para não perder o pouco que ainda tem.
Falava dos livros guardados com carinho em caixas de isopor, na casa de conhecidos, na cidade de Nova Cruz. Ao chegar para rever as coleções, tinham ido para o lixo por ocupar espaço. O descuido originou algumas inimizades.
Me comove até agora outro fato: no último dia da nossa entrevista, numa noite de domingo, estávamos no Carrefour.  Desliguei o gravador do celular e disse: “Pronto, seu Ali. A gravação acaba aqui. Agora vamos comprar algo para o senhor jantar?” Pensei que ele iria se levantar prontamente, pois nessa entrevista citou que não tinha jantado, só comido um pão no almoço e já eram mais de 20h:30. A entrevista havia se prolongado. Fiquei surpresa quando ele disse: “Peraí” e foi lentamente tirando um encarte de supermercado de dentro de um dos sacos. “Você não quer comprar algo pra você, moça?” E mostrou um encarte de produtos de beleza das Lojas Americanas. Olhei o encarte por alguns minutos, achando que  estava arrumando a bolsa. Quando eu devolvia um encarte, ele me mostrava outro. Eu disse: “Seu Ali, vamos jantar? Sei que o senhor está com fome.” Mas ele parecia não me ouvir. Eu fiquei sem entender. Fui tomada pela impaciência e um sentimento de culpa imediato. Seu Ali não quis comida. Foi só no dia seguinte, ao refletir, que me dei conta de que ele não queria que aquele momento terminasse. A fome sempre presente podia esperar. E eu não percebi que a ele estavam fazendo muito bem aqueles momentos, sentado em frente a alguém que o escutava e fazia sentir-se importante. Tão importante que ele nem ligava de comer. Isso me marcou e emocionou.
 Nos encontramos mais uma vez no Carrefour. Ele jantava um prato de sopa que tinha ganhado. Riu ao me ver, pediu que fizesse fotos dele comendo. Aquilo era um evento importante para por no perfil. Ele estava alegre. Eu disse que estava quase terminando perfil e tinha algumas incertezas para confirmar. Ao repetir algumas perguntas que já tinha feito, seu Ali demonstrou um pouco de impaciência. “criatura” e “prezada amiga” são as formas que ele se refere a mim quando faço as perguntas.  Mas também me chama pelo nome, Adriana, quando estamos sem gravar. Tiramos fotos com câmera fotográfica nesse dia. Ele gostou da sessão que fizemos. Achou bela a foto que abre esse perfil.
Esse foi um trabalho de grande responsabilidade. Gosto de ler perfis, mas como é difícil escrevê-los! Começar dá um trabalhão. Mas depois você se vê “apaixonado” pela  história e a insegurança diminui. Deseja que aquilo que ouviu, que alguém te contou, “exista” aí começa a escrever e sentir um pouco daquilo tudo na alma. É um exercício de sensibilidade e emoção.