Pelos Corredores da Loucura

Para o Jornal A Esperança

Panorama do principal hospital psiquiátrico do Rio Grande do Norte


O Hospital Dr. João Machado é uma instituição hospitalar pública de referência na assistência psiquiátrica para o RN. Foi construído dentro dos moldes de colônia agrícola e uma das finalidades era o tratamento pela laborterapia (tratamento de doenças mentais e nervosas através do trabalho). Inaugurada em 1957, dentro da política desenvolvimentista do presidente e médico Juscelino Kubitschek, a instituição surgiu com o nome Hospital Colônia de Psicopatas. Diferente do modelo asilar daquela época, não havia grades de ferro nem muros separando as enfermarias. Assim como pode ser visto hoje, os corredores se interligavam, favorecendo a interação entre os pacientes. Era a realização dos ideais do médico potiguar João da Costa Machado, psiquiatria que lutava por um tratamento mais humanitário para os loucos. Com a morte do médico, na década de 60, o projeto foi paralisado e só foi retomado na década de 90, no processo de Reforma Psiquiátrica. Na atualidade, os pacientes internados no HJM estão bem assistidos, mas a instituição enfrenta graves problemas de superlotação no pronto-socorro, além de ver com preocupação as crescentes internações e reinternamentos dos dependentes químicos.
A assistência psiquiátrica no HJM é realizada por uma equipe multidisciplinar envolvendo médicos, psicólogos, enfermeiros, técnicos e auxiliares de enfermagem, nutricionistas, assistentes sociais, terapeutas ocupacionais e farmacêuticos. Funciona nas seguintes modalidades: 1) pronto socorro com regime intensivo que atende às emergências e casos de urgência clínica e psiquiátrica; 2) ambulatório que realiza atendimentos individuais psiquiátricos previamente agendados e 3) enfermarias, nas quais ocorrem os internamentos, bem como o alojamento dos moradores, que se subdividem em alas masculina, feminina e dependência química masculina. Está em construção uma ala para a dependência química feminina, com 8 leitos. Há 130 leitos em funcionamento, o total é 160. O hospital atende a uma média mensal de 700 pacientes e cerca de 25% desses são internados.
O modelo do HJM faz parte de uma tendência surgida após a Reforma Psiquiátrica no Brasil, um processo político e social complexo, iniciado na década de 70 que abrangeu territórios diversos, desde os governos, hospitais, universidades, conselhos profissionais, associações de pessoas com transtornos mentais, além do imaginário social e a opinião pública. A Reforma foi um conjunto de transformações de práticas, saberes e valores culturais e sociais no cotidiano das instituições, dos serviços e da relação entre pacientes e profissionais. A intenção era acabar com o asilamento dos doentes mentais, oferecer um tratamento eficaz de acordo com as necessidades e que o paciente pudesse resgatar ou manter o convívio social. Para tornar essa realidade possível, surgiram em diversas cidades instituições conveniadas ao SUS (Sistema Único de Saúde), como os CAPS – Centros de Atenção Psicossocial.  De acordo com o Ministério da Saúde, os CAPS constituem a principal estratégia do processo de reforma psiquiátrica que vem sendo implantada no Brasil nas últimas décadas. Suas funções primordiais seriam: 1) prestar atendimento clínico em regime de atenção diária; 2) evitar as internações em hospitais psiquiátricos; 3) promover a inserção social e familiar das pessoas com transtornos mentais; e 4) dar suporte à atenção em saúde mental na rede básica de saúde. No RN há 19 instituições cadastradas, sendo Natal e Mossoró as cidades com mais unidades: quatro.
Com isso, era esperado que diminuísse o número das internações nos hospitais psiquiátricos. Não é o que vem acontecendo no HJM. Hoje, o problema mais grave é a superlotação no pronto-socorro, que tem 35 leitos. Com a grande demanda, o número de pacientes a espera de atendimento chega a dobrar o da quantidade de vagas. A psiquiatra Myrna Chaves- diretora do HJM, diz que os CAPS não atuam da forma adequada: “Era para funcionar 24h. O CAPS III (região Leste) só funciona até as 17h. Depois desse horário eles não recebem pacientes e estes tem que voltar para o hospital. Falta contratar profissionais para essas instituições e isso cabe a o município”, disse. Eugênio Pacelli, administrador do hospital acrescenta: “O hospital cuida da parte clínica. O pronto-socorro é uma atribuição do município, mas o HJM assume. Mesmo com a superlotação o paciente é acolhido, até mesmo no chão, por falta de vagas. O município muitas vezes não dispõe de médicos. Se um paciente não recebe corretamente a medicação, a doença retorna. É o que ocorre com frequência: as reinternações. O medicamento não é fornecido corretamente pelo município. Falta de atendimento ambulatorial. Falta de tudo”, afirma.
Outra realidade tem preocupado os profissionais do HJM: as internações por dependência química, que crescem assombrosamente. No pronto-socorro, os atendimentos a dependentes químicos já supera o de atendimento a transtornos psíquicos. Usuários de drogas chegam geralmente imobilizados, em surto. Os familiares chegam desesperados ao hospital, querendo interná-los de qualquer forma, temendo a violência causada pelo tóxico. Esses são os pacientes com tratamento mais complexo, devido ao fácil acesso a substâncias como o crack e álcool.
Em níveis estruturais, Pacelli reclama da falta de repasse do governo: “Faz tempo que não compramos material permanente para cá. Falta verba. A estrutura desse hospital é antiga e nunca foi feita uma reforma, realmente”. Quase não existem computadores no hospital. A internet está fora do ar há mais de cinco meses. Registros, prontuários, controles de entrada e saída de medicamentos são registrados em grandes livros, organizados em estantes. O hospital não chegou à era digital.
Algumas vezes, o estoque de material de higiene pessoal como sabonete e algodão fica reduzido e os funcionários colaboram, promovendo doações e promovendo medidas econômicas, para que não faltem.
A parte antiga, em funcionamento coexiste ao lado de uma estrutura recém-construída e quase finalizada. É que no futuro espera-se que o HJM seja transforme em um hospital geral. “Esse hospital será, no futuro, uma retaguarda do Walfredo Gurgel. Pacientes debilitados do HWG virão para cá; o objetivo será desafogar o HWG. Receberemos pacientes idosos, em estados terminais e de outras enfermidades. Mas a nossa ênfase será a psiquiatria”.
Parte do prédio foi reformada e ganhou 35 novos leitos. Haverá uma entrada exclusiva para ambulâncias e pacientes e recepção própria. Pacelli disse que a pretensão da Secretaria de Saúde é instalar, ao todo, 70 leitos.



MAPA 1º SEMESTRE 2013 POR DIAGNÓSTICO DOS PACIENTES INTERNADOS
NO HOSPITAL DR. JOÃO MACHADO
TRANSTORNOS MENTAIS
418
64%
ALCOOLISMO
89
14%
DROGAS
147
22%
 A CONFIRMAR
2
0%
TOTAL
656
100%

Dados fornecidos pelo hospital


O contato com o hospital e seus pacientes
As paredes tem a cor verde-água, árvores e plantas bem cuidadas fora e dentro do hospital, em pátios e jardins internos. Os pacientes andam livremente pelos corredores; a maioria dos homens e mulheres usa um uniforme semelhante a um pijama: uma bata e calça de elástico, em tons de azul. Alguns preferem andar descalços, outros calçam chinelos ou sapatos. Na quadra de recreação ao ar livre, conversam em grupos ou sozinhos, sentados em bancos, divertem-se com jogos de tabuleiro e televisão. Homens, mulheres e dependentes químicos ficam separados por alas. Muitos ficam curiosos com a presença de visitantes. A ala masculina e feminina contém pessoas de várias idades, a partir dos 16 anos- a idade mínima para internação. As mulheres parecem muito sensíveis e carentes. Nos corredores elas abordam os funcionários e visitantes, fazendo pedidos, reclamações diversas ou puxando conversa. O ambiente é barulhento e pacífico. Já as alas masculinas são menos ruidosas, os homens são mais reservados e gostam de jogos como sinuca e totó. O lado dos dependentes químicos é constituído de indivíduos jovens, que passam o tempo deitados em colchões, assistindo televisão.


A residência médica em psiquiatria
Há pouco tempo o hospital parecia ser repudiado por profissionais recém-saídos das faculdades ligadas a área de saúde. Nas contas da diretora do hospital, fazia 20 anos que médicos não procuravam a especialização em psiquiatria. Até que em um congresso em Recife-PE deparou-se com a existência de uma residência em psiquiatria naquele PE que era paga pelo governo do estado. A ideia foi aprovada pelo secretário de saúde Gilson Marcelino e aprovada pela Comissão Nacional de Residência Médica. Hoje há 9 residentes em psiquiatria no hospital.



A loucura
A loucura está ligada não apenas às assombrações e aos mistérios do mundo, mas ao próprio homem, às suas fraquezas, às suas ilusões e a seus sonhos, representando um sutil relacionamento que o homem mantém consigo mesmo”  Foucault.

Historicamente a loucura é vista com maus olhos. Em tempos medievais, pessoas com desordens mentais eram expulsas das cidades e fortificações e embarcadas em navios, para serem transportadas para longe a fim de livrar as famílias e cidades de suas presenças inconvenientes. Esses barcos ficaram conhecidos como Nau dos Loucos. Séculos depois, coisa semelhante repetia-se nos antigos leprosários, que depois foram transformados em manicômios: iam para esses lugares os loucos, criminosos, desordeiros. Essas instituições costumavam ser cercadas de muros altos e afastadas dos centros das cidades. Não se sabia ao certo o que acontecia dentro daquelas paredes, mas de fora podiam ser ouvidos gritos e lamúrios dos internos. O indivíduo, escorraçado do convívio social muitas vezes pelos próprios familiares, adentrava num outro mundo, do qual, possivelmente ele não sairia mais.  Efeito semelhante ao das embarcações do passado.



Um Pouco da História do Hospital Psiquiátrico em Terras Potiguares
No século 19, doenças como lepra, sífilis, cólera e a varíola aterrorizavam a população de Natal. Não sabia-se as formas de contágio dessas moléstias e o povo acreditava na teoria dos miasmas, segundo a qual os odores exalados por matéria orgânica podre nos solos e lençóis freáticos originavam doenças. Naquela época, sugeria-se que o matadouro da cidade fosse instalado em local afastado, assim como se abandonasse o hábito de enterrar os mortos nas igrejas.
Nesse tempo, a cidade de Natal lentamente crescia e os problemas sociais surgiam. Muitos indigentes perambulavam pelas ruas da cidade, muitos cablocos e escravos libertos em situação de extrema pobreza. O que fazer com essa gente? Não havia políticas de ressocialização no país e a solução era criar locais para abrigar essa gente nas cidades. Os nomes eram casa de Caridade, um hospital ou Leprosário.  Em 1855 surgiu o primeiro hospital de natal, o Hospital da Caridade. Como a carência médica era grande, os pacientes lá ficavam abandonados à própria sorte. Dois anos depois foi criado um lazarento que, ao contrário do que o nome indica, não recebia leprosos, mas casos de pacientes desenganados e também era local de despejo de pessoas que não se enquadravam nas regras de conduta social, chamados de loucos. Os leprosos ganharam um Leprosário, que ficava bem afastado da cidade.
No Brasil, as pessoas consideradas loucas, mesmo que não tivessem cometido crimes, eram trancafiadas em cadeias públicas, alojamentos de paredes escuras, grossas, cercados de grades, amarrados ao chão, em péssimas condições de higiene, passando fome e recebendo castigos físicos.
O primeiro hospício do Brasil surgiu em 1852. Era nos moldes dos hospícios franceses e oferecia higiene, água de boa qualidade e segmentação entre seus pacientes. Natal demorou a ter um assim. As pessoas encerravam os seus destinos no Lazarento, que teve o nome modificado para Asilo da Piedade e era chamado pelo povo de Prisão de Doidos. Tempos depois o lugar passou a ser chamado de Hospício de Alienados de Natal.
Tudo mudou com a chegada de João da Costa Machado, a Natal, em 1936, que proporcionou um novo olhar sobre a saúde mental, lutando contra o antigo modelo de tratamento da loucura.



Referências:
Ministério da Saúde

Azevedo, Juliana Rocha de. Diálogos da Alma: Uma outra história da Loucura. Natal, 2006

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