segunda-feira, 18 de março de 2013

Fotec entrevista Luiz Carlos Molion

Essa foi a minha última matéria feita durante a Cientec em 2012. Levei um susto ao perceber que o site da Agência Fotec, um dos projetos que fazem a cobertura do evento tinha saído do ar. Ainda bem que, aos poucos, as matérias estão aparecendo. A Fotec é motivo de orgulho para nós, estudantes de comunicação que temos a oportunidade de experimentar o jornalismo fora da sala de aula, com direito a errar e aprender muito além das nossas expectativas.
Agência Fotec - Fotojornalismo Experimental


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Fotec entrevista Luiz Carlos Molion



Luiz Carlos Molion conversa com estudates de comunicação (Adriana Brasil/Fotec)

Por Adriana Brasil

Cético quanto ao papel da atividade humana no aquecimento global, o professor Luiz Carlos Baldicero Molion, que proferiu o discurso de abertura da Cientec, dia 23, visitou o estande da Fotec no dia do encerramento (26), quando conversou com estudantes do curso de Comunicação Social da UFRN. “Aquecimento global”, “Amazônia” e “Energia Nacional” foram temas discutidos. Confira na entrevista abaixo:
Luiz Carlos Molion é graduado em Física pela Universidade de São Paulo (1969), PhD em Meteorologia, University of Wisconsin, Madison (1975) e pós-doutor em Hidrologia de Florestas, Institute of Hydrology, Wallingford, UK (1982). Possui vários trabalhos publicados em revista, livros e congressos no Brasil e exterior.

 
Agência Fotec: Quando o senhor interessou-se pelos estudos climatológicos?
L. C. Molion: Minha formação é de Bacharelado em Física; desde os tempos da faculdade, interessei-me pelo estudo da física aplicada à atmosfera: Meteorologia ou Climatologia. Em 1975, concluí o PhD em Meteorologia; portanto, são 37 anos de doutorado e 42 anos que eu estudo o clima.

 
Agência Fotec: Os ambientalistas falam de um preocupante aumento da temperatura no planeta nos últimos anos. Como o senhor explica isso?
L. C. Molion: Os termômetros que fazem essas medições estão localizados nas cidades. Esses valores não dizem respeito ao planeta, e não se pode comparar uma cidade como Viena, na Áustria, em 1710, ano em que começou a se a medir essas temperaturas, com a cidade tal como se encontra hoje. O que aconteceu: O homem passou a aglomerar-se em grandes centros urbanos. E as cidades têm o seu “microclima” diferente do resto do mundo. Por exemplo: Em uma floresta como a Amazônica 80% da luz do Sol serão para a evaporação e transpiração das plantas, e apenas 20% para aumentar a temperatura do ar. Em uma cidade, a água da chuva a cai e escorre porque as superfícies estão impermeabilizadas pelos telhados, asfalto. Não tem como a água evaporar. A energia do sol é utilizada quase que totalmente para aquecer o ar. A temperatura durante o dia, dependendo da geometria e densidade dos edifícios, pode aumentar quase dez graus a mais que uma região vegetada. À medida que a urbanização vai aumentando, a temperatura aumenta. Há também há muita malandragem, como por exemplo, ajustar as temperaturas, como fez o pessoal do Instituto Goddard de Estudos Espaciais da NASA, que fizeram um ajuste nas séries de temperaturas já medidas. Eles aumentaram e diminuíram alguns valores para dar a impressão que as temperaturas estão crescendo.

 
Agência Fotec: Qual a explicação científica para essas variações de temperatura?
L. C. Molion: O Sol tem um pico de emissão de calor de 100 anos. O máximo foi atingido em 1960. O aquecimento que estão dizendo ser culpa do homem ocorreu no período de 1956-1998. As temperaturas começaram a decrescer em Dezembro de 2010. O Sol está em período de baixa atividade que vai durar até 2032, 2034. O Sol menos ativo produz menos energia. Dessa forma, permite à Terra esfriar. Os oceanos estão esfriando. Temos mais de 6.500 boias viajando pelos oceanos e elas indicam que o Sol está dissipando menos energia. Nós vamos ter um resfriamento global, não o aquecimento.

 
Agência Fotec: O derretimento das geleiras que os ativistas mencionam tem a ver com o aquecimento?
L. C. Molion: A temperatura do Oceano Atlântico Norte é controlada pelo ciclo lunar astronômico, chamado ciclo nodal lunar. Na máxima frequência – que foi de 2006 a 2007 - acelera as correntes marinhas, levando mais calor em direção aos polos. Quando as correntes marinhas do Atlântico Norte entram no Ártico, a água- que está um pouco mais quente- entra por debaixo do gelo flutuante, os icebergs, cuja parte visível é apenas 10%, o restante está submerso. Essa parte submersa é atingida pelas correntes marinhas de águas mais quentes. Derretem parcialmente e não conseguem mais sustentar a parte aérea, que então colapsa e desmorona. Não é porque o ar está quente. É porque a água está quente em função das correntes marinhas estarem transportando mais calor em direção ao polo por conta desse ciclo lunar. No ano de 2015 e 2016 o ciclo estará no estágio mínimo. As correntes marinhas irão transportar menos calor, o Atlântico Norte vai voltar a esfriar e o gelo irá recompor-se. Já ocorreu um grande degelo no Ártico, maior que o atual, entre 1930 e início dos anos 40. Esse ciclo dura aproximadamente setenta anos. Mas o terrorismo climático diz que o nível do mar vai aumentar. O Al Gore [ecologista e político norte-americano] disse que o nível do mar irá aumentar seis metros e recentemente comprou uma casa de praia em Montecito, Califórnia por US$ 9 milhões. O cara está convencido que o nível do mar vai subir seis metros e compra uma casa ao nível do mar. É meio estranho.

 
Agência Fotec: Como as suas ideias são recebidas no meio acadêmico?
L. C. Molion: O pessoal que estuda geologia tende a duvidar do aquecimento global produzido pelo homem porque eles estão acostumados a trabalhar com escalas de milhares de anos; ao estudar rochas, eles sabem que os processos são lentos, fica muito mais fácil conversar com eles. Já os biólogos trabalham com ciclos curtos de vida, são mais difíceis de convencer. Eu, durante muitos anos praticamente era uma voz sozinha clamando no deserto. Hoje muitos colegas concordam comigo, mas não querem se expor, não querem ir contra o pensamento vigente para não sofre retaliações. Eu não me preocupo e desafio a quem quiser provar que as teses que apresento estão erradas. Sou consciente do quanto não sabemos e sou muito consciente da nossa ignorância. Muitos preferem sempre afirmar categoricamente: O mundo vai aquecer. Dão o prazo de cem anos. Você estará aqui daqui a cem anos? Desejo estar vivo nos próximos vinte anos em que haverá um esfriamento global e que pode ser bem ruim para a agricultura. Já temos exemplos recentes: Semana passada, cerca de 30% da safra de trigo no Rio Grande do Sul foi quebrada. O motivo: geadas severas.

 
Agência Fotec: Na palestra de abertura da Cientec, o senhor falou de interesses econômicos no aquecimento do planeta. Por parte de quem?
L. C. Molion: É difícil saber quem está falando com isso. Tem muita gente, particularmente que ganha com isso. Mas é muito claro que sempre existiu e continuará existindo uma tentativa de governança global. Porque os países do G7 são países que hoje que não tem recursos energéticos nem naturais. Um país como o Brasil, ainda não teve explorado muitos dos seus recursos energéticos e naturais. Para ter ideia, de potencial hídrico, só aproveitamos até agora 30% do nosso potencial. A Inglaterra domina o mundo há mais de mil anos, hoje está decaindo e tem receio de que países como o Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, os chamados “BRICS”, venham a dominar. Então, qual é a manobra? É inventar que os produtores aquecem o mundo. Como 80 % da matriz energética global vem da queima do carvão e do petróleo, diminuir essas emissões significa gerar menos energia elétrica, sendo assim os países pobres não vão conseguir crescer. Na Rio +20 discutiu-se “reduzir as emissões com responsabilidades iguais”, e aí? Nós ainda temos 40% da nossa população na pobreza, não vamos gerar mais energia elétrica? A pobreza vai aumentar no país, enquanto que a Holanda coloca uma nova usina termelétrica, emitindo CO2. Aí, paga uma ONG, para comprar na Venezuela uma área, reflorestá-la e então “compensar” o CO2 que ela está emitindo. As árvores que estão plantadas lá na Venezuela, só poderão absorver o carbono que chegar lá falando holandês, certo? É absolutamente ridículo! O que a Holanda ganhou? Uma nova termelétrica, produzindo energia, mantendo o nível de empregos do seu povo com o combustível do seu povo. E o que os venezuelanos ganharam: uma área que eles não vão poder mexer no espaço de cinquenta anos. Conservação ambiental assim é bom.

 
Agência Fotec: A energia eólica é uma boa opção de energia sustentável?
L. C. Molion: Não funciona, é uma porcaria. Porque a energia eólica depende do vento e o vento é intermitente. É necessária uma velocidade de 15 km /hora para dar partida nas hélices e se passar de 50 km/h as hélices saem voando junto com o vento. Não funciona. A Alemanha, que muito investiu em energia eólica, fez um balanço dos últimos dez anos; concluiu-se que os aero geradores tiveram o rendimento de 16,3%. O que o país fez: abandonou os investimentos em energia eólica e voltou para as velhas termelétricas. Estão construindo 23 usinas termelétricas. A primeira delas será inaugurada mês que vem. Serão dois gigawatts de potência, a gás natural.

 
Agência Fotec: A energia solar seria uma alternativa para regiões como o Rio Grande do Norte?
L. C. Molion: A energia fotovoltaica é bem mais confiável que a energia eólica. Pode ser bem aproveitada no sertão nordestino e no Centro-oeste nos meses de Abril a Setembro, quando praticamente não chove. Só que a fotovoltaica é ainda um tipo de energia muito cara. A MPX, do Eike Batista, montou uma usina solar em Tauá, Ceará. De 1 megawatt de potencia. Porém já não chega a isso, pois o rendimento dos painéis é de apenas 12,5%. A usina levou seis meses para gerar 600 megawatts /hora de energia. Uma usina como a de Itaipú gera isso em 60 minutos. A energia fotovoltaica é cara e interessante para pequenos aproveitamentos, como o bombeamento de água no sertão, a dessalinização, a iluminação. Exemplo: um poste com lâmpada LED, painel solar e bateria seria uma opção para muitas prefeituras nas cidades de interior que estão penduradas por conta da iluminação pública. Para pequenos aproveitamentos como esses, a fotovoltaica é boa. Para aproveitamentos maiores, o correto seriam os concentradores solares, que podemos fabricar aqui no Brasil. Ainda não fabricamos os cristais da fotovoltaica, já os concentradores solares de calha parabólica, nós podemos fazer tudo por aqui. E o mais importante, sem impacto ambiental nenhum.

 
Agência Fotec: Como avalia o setor energético no Brasil?
L. C. Molion: O grande problema no Brasil é a transmissão de energia. A demanda aumenta e o sistema colapsa. Não adianta entrar em horário de verão. Por exemplo, do sul da Bahia para baixo está em horário de verão. Situação lamentavelmente ridícula em um país tropical como o nosso. Fazem isso por quê? Para moldar o horário de pico. Uma hora à frente no sul e os caras vão tomar banho, ver televisão, uma hora antes daqui, o que teoricamente distribui esses picos que eram concentrados. O problema é que estamos com todo o nosso sistema saturado. Praticamente a transmissão. O governo levou muito tempo para adotar atitudes e deixar para a iniciativa privada transmitir a energia elétrica. Que poderia distribuir melhor. Temos muita energia, mas falta boa distribuição. Isso é seríssimo: 85% da nossa eletricidade vêm dos rios, de hidrelétricas já foram pagas, e construídas com os impostos que nós pagamos. Enquanto nesse país a energia elétrica estiver cara, não dá para crescer. Porque energia elétrica é insumo básico. Ela está para o setor produtivo, assim como a água está para a nossa sobrevivência. Sem energia o país não cresce. A maior parcela que pagamos nas nossas contas de energia são os tributos, impostos, distribuição. Imposto caríssimo, energia cara, como o país irá desenvolver? Os “grandes” têm certo jogo de cintura para negociar com as concessionárias. Mas o serralheiro, mecânico, marceneiro, não tem. Então eles são obrigados a ter os custos e serviços mais altos para compensar os custos da energia elétrica cara. Falta planejamento, metas, projeções.

 
Agência Fotec: O senhor considera a Amazônia é importante para o equilíbrio do planeta?
L. C. Molion: A princípio, sim. De florestas, temos 5 milhões de km² e superfície do planeta é de 510 milhões de Km². A Amazônia representa 1% da superfície do planeta, portanto ela não tem impacto global. O seu desmatamento pode causar impacto local e regional. Eu já estive do outro lado, o tema da minha tese de doutorado, em 1975, foi sobre o impacto do desmatamento da Amazônia no clima global. No ano de 1987, fizeram uma medição da quantidade de átomos de carbono que a Amazônia retirava do ar. A medição foi realizada em um ponto da floresta, mas chegou-se a conclusão que, se generalizasse para toda a floresta, esta retiraria da ordem de 1,2 bilhões de toneladas de carbono por ano da atmosfera. É claro que se cada tonelada de carbono chegou a valer 45 dólares, significa que deveriam pagar para nós e para os nossos Hermanos, que também tem parte na Bacia Amazônica (Bolívia, Peru, Venezuela, Colômbia), 50 bilhões de dólares por ano. Mas não gostaram do que eu falei. No protocolo de Kyoto, disseram que florestas nativas, como a Amazônia não sequestram o carbono. Mas conseguimos provar que sim.
Eu pensava da seguinte forma: “a Amazônia é uma fonte de calor para o mundo e pode ser que o impacto do desmatamento tenha um impacto no clima global”. Depois revendo um pouco, considerando que representa apenas 1% da área da superfície terrestre, estou duvidando das mesmas ideias que eu tinha a quarenta anos atrás. Assim, é dinâmico não é? A gente muda.

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