domingo, 17 de fevereiro de 2013

Clarice não dormiu


Era madrugada e Clarice Lispector estava insone na varanda de seu apartamento. O que se passava? A atriz é a colega de curso Susana Araújo. Tentamos reproduzir nesse vídeo algumas faces de Clarice, que captamos nas obras "A Hora da Estrela" e " Perto do Coração Selvagem". No vídeo, Clarice é um pouco dessas perturbadas e complexas mulheres.



Roteiro / Direção / Filmagem: Adriana Brasil
Atriz: Susana Araújo


O trabalho foi inspirado no texto da escritora Ana Miranda. Perfis do Rio, Editora Relume- Dumará:




"A cidade é vista do 13º andar de um edifício branco revestido de mármore. Uma superestrutura. É madrugada de lua cheia.
Clarice fuma, debruçada no parapeito da área de serviço. A área de serviço é um emaranhado de vidraças, esquadrias, varais, manchas de chuva, janelas contra janelas. Um monstruoso interior de uma máquina de viver.
Clarice joga a ponta de cigarro na cidade. Ela procura a amplidão."


sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Entrevista com a professora Sandra Erickson






Ativismo Humanitário na Cientec 2012

Professora Sandra Erickson relata experiência com causas humanitárias



Por Adriana Brasil


Rangzen: Movimento Free Tibete Natal está presente na Cientec 2012, promovendo o movimento social em prol da liberdade da província chinesa, assim como de outras causas de âmbito local e nacional. Sandra Erickson, professora de Literatura Inglesa da UFRN, aproveitou um estande vazio do Pavilhão da Saúde e, com a ajuda de alunos e amigos, pôs a bandeira do Tibete, espalhou cartazes feitos à mão, banners informativos, um laptop e símbolos tibetanos.Assim tem recebido visitantes durante o evento para discutir e compartilhar informações acerca de ações humanitárias em defesa da liberdade e cultura.
Em entrevista à Agência Fotec, ela defende a necessidade do engajamento social nessas causas e fala de movimentos atuais como a Marcha Contra a Corrupção e a luta dos índios Guaranis-Kaiowás contra a expulsão de suas terras no estado do Mato Grosso do Sul. Ela fala também da militância em prol da liberdade no Tibete. Praticante do budismo tibetano, Sandra valoriza o sentido espiritual das ações mais simples. Ao participar das oficinas do Rangen, o participante não recebe um certificado de papel, ganha uma pulseira de barbante e semente de flor-de-lótus feitas por ela, que diz “os alunos dizem ‘professora, a semente dissolveu na pulseira’! Eu costumo explicar: assim são as coisas materiais, elas se vão. Nossas ações, não. Elas ficam para o mundo”. Confira a entrevista:

Agência Fotec: Veicula-se na mídia uma carta feita pelos índios em que uma das interpretações acusa a possibilidade de um suicídio coletivo na comunidade. Como a senhora vê essa situação?
Sandra Erickson: Para esses 171 índios a morte é a solução extrema para uma vida sem dignidade que, para eles, significa estarem ligados à sua terra. É importante que eles vivam ali, no chão onde um dia viveram e hoje estão enterrados os seus ancestrais.  A ligação com a terra e seus antepassados é muito forte. Essas situações de despejo e conflitos com os fazendeiros da região estão sendo dolorosos para eles, que perdem assim a sua identidade cultural. Hoje, dia 26 de Outubro, será para nós, ativistas, o dia “D”: faremos ações nas redes sociais a favor dessa causa. A carta que circula na mídia é um pedido de socorro. Pela interpretação, subentende-se que há o risco de acontecer, sim, um suicídio coletivo. Isso envolveria adultos, crianças, velhos. Há índios sendo assassinados em conflitos com fazendeiros da região e há pouco destaque para esses crimes. E não há punição.
 
Como as pessoas podem aderir a essa causa dos índios Guarani-Kaiowás?
SE:  Estamos mobilizando as pessoas para que dia 28 de Outubro, ao saírem para votar nas eleições do 2º turno, vistam roupas pretas e pintem o rosto de vermelho. O objetivo é chamar a atenção das pessoas e da mídia para a causa dos Guaranis-Kaoiwás. Estamos nas redes sociais em grupos no Facebook e Twitter em que inserimos o sobrenome “Guarani-Kaiowá” em nossos perfis. As redes sociais nos fornecem grande poder de mobilização. Há também uma página na internet onde o internauta poderá aderir ao abaixo-assinado exigindo maior cobertura por parte da mídia e, medidas de ação do governo Dilma e do governador André Pucinelli (MS) para evitar o risco da morte desses índios. O internauta pode assinar a petição que está disponível no site. (veja o link no final da matéria)
 
Qual a sua relação com o Tibete?
SE: Sensibilizei-me com a causa tibetana ainda nos tempos da faculdade. Nessa época aderi ao grupo de estudantes ativistas “Student For A Free Tibet”, grupo bastante conhecido pelo mundo e milito, desde então, na causa desse povo, cujo país perdeu a liberdade após a invasão da China, em 1950. Para se ter ideia, lá as pessoas não podem mais falar a própria língua. O movimento do povo do Tibete é pacífico, sem armas. A bandeira do Tibete não pode ser hasteada nem exibida, sob o risco de prisão, com pena de cinco anos para o portador. Ainda assim é guardada por muitos tibetanos como algo secreto, íntimo e de valor emocional. Por isso, ativistas fazem questão de exibir a flâmula como símbolo da luta pela liberdade do país. Gosto deste sol aqui [aponta no centro da bandeira a imagem de um sol amarelo que raia para todas as direções], que simboliza o gozo da liberdade por todos.  
 
Como está sendo a recepção do público no estande da Cientec?
SE: Positiva. Pessoas de idades variadas têm nos visitado. Os alunos vêm para cá, trazem amigos e ajudam a realizar ações como a pintura de protesto que aconteceu agora à noite. Pintamos o rosto das pessoas com desenhos indígenas, para assim divulgarem nossa ação dos Guaranis-Kaiowás. Até ontem(25) contabilizamos mais de 500 assinaturas.
 
A senhora possui alguma militância partidária?
SE:  Não. Sou apartidária. Mas a favor dos direitos políticos e das campanhas sociais. Acredito que todos devem ter as suas escolhas respeitadas, independente de partido, religião. A minha militância é além. Eu milito pelos direitos da liberdade.
 
Há um movimento regional  contra o aumento de salário de políticos. O que está sendo realizado no estande?
SER: Temos no estado a Marcha Contra a Corrupção (MCC - RN). No estande há um abaixo-assinado com o objetivo de recolher muitas assinaturas para lutarmos por um projeto de lei que controle o aumento de salários acima da inflação pelos próprios políticos. Em casos desse tipo, queremos que haja um plebiscito para que o povo decida se deve ou não aumentar esses salários. Também este é um movimento apolítico e feito por estudantes, que está sendo divulgado no estande.
 
Como analisa a postura da UFRN em relação a causas humanitárias?
SE: Olha, a UFRN estabelece parcerias com vários países. Vivemos em uma sociedade democrática que não estabelece cobranças para com a não-prática dos direitos humanos por países de regimes autoritários, como a China. Posso citar o exemplo de um colega, professor, ganhador do prêmio Nobel, que não pôde sair do país para ir receber o prêmio por ter sido preso por fazer um abaixo-assinado exigindo a prática dos direitos humanos. Punido por divulgar um simples abaixo-assinado. Falta uma postura da universidade em relação a práticas desse tipo.  [Liu Chiaobo, professor chinês, defensor da democracia no país, ganhador do Prêmio Nobel, em 2010, preso por subversão. Atualmente é pressionado a exilar-se da China, mas não quer deixar o país].
 
Quais seus anseios em relação à Cientec?
SE: Sonho com o dia em que a nossa universidade traga de forma gratuita a população para eventos como a Cientec. A instituição dispõe de poder político e econômico. O evento é belo, interessante e útil para o ativismo político, social. Poderia abranger mais a comunidade. A universidade pertence ao povo.