Borderline. 


O compasso escolar ganha uma função macabra. Desenha linhas e buracos na pele.



B.
   Sentimento de que era rejeitada, inapropriada para tudo. Isso era o motivo da postura insegura e de um semblante de tristeza,  que aparentava muitas vezes. Sonhava acordada com a própria morte, um suicídio lento e com a total consciência de seu ser, no último fio da sua existência. Era nesse deleite que se trancava no banheiro com o estojo escolar. Sentada no chão, sacava da bolsinha barata o velho compasso enferrujado. Aí começava um ritual que repetia sempre: arrastando a ponta, uma agulha grossa, sobre a pele. Arranhões  em meio a soluços mudos, em locais específicos: ombros e quadris. O sangue brotava na pele em filetes e gotas. O cheiro de ferro, a pele enrubescida, inchada, quente. Um calor aconchegante tomava conta do pequeno banheiro. Então deitava no chão,  e passava muito tempo olhando para o braço fino. As veias pareciam pulsar com intensidade. Havia mais sinais a observar? Sim, arranhava-se mais e mais. Queria muito mais. E nesse deleite, chorava, sorria, inebriada. Era assim que sentia a vida... Não lembrava como, mas descobrira uma válvula de escape cortando-se com um compasso escolar. Talvez não houvesse jeito. Aquele objeto era seu instrumento de punição. Sentia carinho por ele. Naquele ambiente de refúgio que criara para si, estendida no chão, costumava ao fim de tudo dormir olhando para a pele que latejava. As lágrimas secavam e surgia um leve sorriso de contentamento. Plenitude era poder castigar-se, punir-se pela existência de si, aberração que era. faziaEstava fazendo em si o que deveriam ter feito, já. Como seria a sua morte? Assassinada? Sentia-se íntima e próxima do seu algoz, o ajudaria.
    O sangue parava de brotar, coagulara-se e então era hora de levantar-se, lavar-se para voltar à vida normal. Era a conexão com a realidade de volta. Vestia a roupa e voltava para o mundo, confortada.

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