terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Transformação

Abaixo uma crônica que fiz:


Era uma noite de sábado em uma capital do Brasil, anos oitenta. A missa encerra e pelas portas do templo começam a sair pessoas. Da porta principal disparam crianças correndo em direção à pracinha bem iluminada que havia na frente da igreja. Velhinhas vão para casa, andando devagar com seus terços em mãos. Pessoas conversavam, passeavam, havia pipoqueiro, vendedores de balas e bugigangas. O ambiente estava animado, aqueles fiéis saíram da missa revitalizados. Havia uma família humilde, composta de um casal e cinco crianças. Quatro meninas puseram-se a correr para lá e para cá, enquanto os seus pais sentaram-se em um banco da praça. Eles conversavam, sem perceber a aproximação da filha mais velha, que senta-se ao lado deles, no mesmo banco.  A garota aparentava ter onze anos. Magra e de pernas muito finas, ela olhava com carinho para as irmãs, com seus vestidinhos e meias de crochê até os joelhos, feitos pela mãe, que corriam e gritavam na pracinha. O exercício havia-as deixado ofegantes e de cabelos desalinhados. A irmã mais velha ria, satisfeita e orgulhosa por estrear a sua primeira calça jeans. Não estaria mais usando as mesmas roupas que as irmãs, crianças usavam. Os vestidos de retalhos e mangas bufantes, os conjuntos de shorts de elástico e regatinhas dariam lugar a uma peça “de gente grande” como gostava de pensar. Lembrava a emoção que sentiu ao ouvir o pai dizer à balconista de uma loja de departamentos: “Moça, tem calça baggy? Pois traga algumas para a minha filha experimentar”. Sentia-se especial, vestia pela primeira vez uma peça que lhe cobria as pernas. A calça era muito comprida e sobrava tecido, fazendo volume sobre o tênis. A jovem abotoou a peça acima da cintura e ficou a admirar-se diante do espelho. “O modelo da moda é o five pockets”,  lembrou a vendedora; mas a garota e o pai talvez nem tenham escutado, ou não quiseram ceder. Aquela seria a peça.


Hormônios. A garota também sentia-se sozinha, sofrendo sem saber os motivos. O sofrimento também nos extrai a sensibilidade, se a vida fosse sempre euforia, haveria reflexão? A jovem tinha um leve sorriso nos lábios e o pensamento distante... Voltara no tempo, pôs-se pensar nos processos e transformações, que a vinham deixando tão diferente, insegura e orgulhosa de si...


Um esbarrão dentro de casa - uma pancada no peito que doeu de maneira leve, a fez descobrir um estranho caroço em um seio. Achou muito estranho aquilo. Guardou segredo e percebeu que o caroço crescia dentro de seu peito esquerdo. Era um caroço sólido e estranho, havia umas pequenas ramificações em volta, algumas veias que eram visíveis através da pele. Era tal como uma semente a germinar, e que a menina temia que se espalhasse, fora de controle, por todo o seu corpo. Pensava em falar para a mãe, mas não sentia-se à vontade, embora amorosa, esta vivia preocupada com os afazeres domésticos e as costuras que fazia para complementar a renda de casa. O pai era seu amigo, mas foi educada, segundo uma tradição familiar de que não deveria expor-se. Como se devesse esconder seu corpo diante do mundo ou até esquecer-se. Além disso, sentia uma confusão, emoções diferentes. Se o caroço a preocupava, outras coisas a faziam sorrir. Havia entrado um novo coleguinha na quinta série, vinha transferido de outra cidade. O coração disparou ao ver aquele rapazote de cabelos louros, escorridos, usando óculos de acetato azul. Achou lindas aquelas cores, ao olhar o céu azul da manhã, ensolarado, ria sozinha, lembrando do rapazote. Um dia percebeu que o pai a flagrara em seus devaneios. Assustou-se. Ele, que a observava com curiosidade, riu, cúmplice. Encarava-a carinhosamente. Já fazia um tempo que sentia-se tratada de maneira diferente em casa, agora ouviam-na atentamente a opinar sobre o que der e viesse. Sentia-se desabrochar, percebida fora do bloco “filhas-crianças”. O pai, em sua simplicidade, parecia entendê-la e respeitá-la, como se dissesse “vá em frente, não tema”. Em pouco tempo conseguia processar toda aquela situação antes inusitada e constrangedora. Nascia naquela moça a vontade de deixar-se ser, saber quem era. Estava mais leve em meio aos novos desejos e sensações. Surgia a puberdade... Brincar de bonecas e de pique-esconde perdia a graça. As irmãs mais novas viam-se “órfãs” da companheira de diversões e procuravam sabotá-la de diversas maneiras. Descobriram um caderno com segredos- o diário da irmã mais velha- uma obra recente e cada vez mais companheira da adolescente que florescia naquele lar. Na casa pequena era cada vez mais difícil esconder aquele caderninho que se fazia tão útil nos momentos de solidão e alegrias. As crianças corriam em bando pela casa às gargalhadas, lendo ou gritando pela casa trechos do diário. Gargalhadas se misturavam aos choros de humilhação da jovem, sempre que ela escutava “Querida Sandy,...”. O primogênito sempre “sofre” mais em certos aspectos, mas algumas experiências têm um valor especial por seu pioneirismo naquele pequeno universo. Pois bem, o primeiro sutiã, não pode ser um evento marcante na vida de uma jovem, e dentro de sua família também? O caroço era um seio a brotar... E todos naquela casa celebraram aquele primeiro sutiã, uma pecinha única, com retalhos de florezinhas coloridas feita por uma mãe orgulhosa. Parecia que tudo se encaixava, e a vida era bela, ela tinha sonhos, tinha família e gana de conhecer a vida. Sorrindo ela vira-se. O olhar vai de encontro ao dos pais que sorriem e fitam-na, cúmplices. É o mesmo olhar diferente, que a faz florescer.

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